Para contribuir com as reflexões do Mês Vocacional, o CNLB Regional Leste 2 conversou com Sônia Oliveira sobre o tema deste ano, “Comunidades Vocacionais: encontro, testemunho e missão”.
Na entrevista, ela destaca a vocação e a missão dos cristãos leigos e leigas, a importância da corresponsabilidade na Igreja e o papel do laicato nos diferentes espaços da sociedade.
1. Neste ano, o Mês Vocacional tem como tema “Comunidades Vocacionais: encontro, testemunho e missão”. O que esse tema nos ensina sobre a vocação e a missão dos cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade?
O tema deste Mês Vocacional, “Comunidades Vocacionais: encontro, testemunho e missão”, tem muito a nos ensinar enquanto leigos e leigas. Primeiro, porque nos chama a refletir sobre a nossa própria vocação e nos lembra de que a vocação é de todos na Igreja. Pelo Batismo, somos todos vocacionados. Existem diferentes vocações, e a vocação dos cristãos leigos e leigas também é fundamental.
O tema fala de encontro, testemunho e missão, e isso tem tudo a ver com o nosso chamado. Enquanto leigos e leigas, nossa vocação primeira está na família e na sociedade. É nesses espaços que somos chamados a dar testemunho, viver a experiência da missão e anunciar o Evangelho. Esse é o campo específico da missão dos cristãos leigos e leigas.
Por isso, o tema também nos ajuda a compreender a corresponsabilidade que todos temos na Igreja. Somos chamados a ser sal e luz na sociedade, testemunhando Jesus Cristo nos ambientes onde a vida está ameaçada. E a nossa sociedade precisa cada vez mais desse processo de encontro e de testemunho.
Muitas vezes, nós, leigos e leigas, ficamos esperando que alguém dê esse testemunho. Mas, pelo Batismo, somos nós que somos chamados a testemunhar Jesus Cristo nos diferentes ambientes: na família, na sociedade, na política, nas artes, na comunicação e em tantos outros espaços.
Todos esses lugares podem ser espaços de encontro, de partilha e de vivência da fé. Neles, podemos testemunhar quem somos e dizer: “Sou cristã leiga, faço parte de uma comunidade e procuro viver a Palavra e a experiência comunitária”. Por isso, acredito que o tema deste Mês Vocacional tem tudo a ver conosco, leigos e leigas.
2. As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil reforçam a importância de uma Igreja em saída, que escuta, acolhe e forma discípulos missionários. Como os cristãos leigos e leigas podem assumir esse protagonismo em suas comunidades e nos diferentes espaços da sociedade?
Quando olhamos para as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, percebemos que elas estão muito focadas nesse processo e nos convocam como corresponsáveis pela missão.
No capítulo 4, especialmente quando fala do “Povo de Deus em missão”, há um destaque muito importante para quem é sujeito da ação evangelizadora. Ao mesmo tempo em que afirma que o cristão leigo e a cristã leiga são sujeitos da ação, o documento reforça que somos responsáveis por realizar essa missão na sociedade.
A partir do número 72, quando trata da missão própria dos cristãos leigos e leigas, as Diretrizes apontam que somos chamados e enviados a atuar de modo transformador nos diferentes espaços onde a vida está ameaçada. É um aspecto que também recupera aquilo que o Documento de Aparecida já afirmava.
Para nós, isso é um incentivo muito grande. Hoje, ainda percebemos uma defasagem na presença do laicato como sujeito maduro na fé, consciente de sua vocação e de que, a partir do Batismo, é chamado e enviado para estar nesses espaços e contribuir para a transformação da sociedade.
Muitos leigos dizem: “Eu não quero mexer com política”, “não gosto de política” ou “não quero atuar nesse espaço”. Mas as Diretrizes nos dizem que é importante incentivar o laicato a participar da política, do exercício de cargos públicos, de conselhos de direitos, sindicatos e movimentos populares.
E, onde quer que estejamos, somos chamados a anunciar o Evangelho com criatividade. Anunciar o Evangelho é testemunhar Jesus Cristo no cotidiano e transformar a sociedade a partir da fé que professamos.
As Diretrizes apontam justamente esse caminho: o campo específico da missão dos leigos e leigas é a sociedade, nos diferentes ambientes em que estamos presentes. Existe uma corresponsabilidade na missão. Nossa missão primeira acontece na família e na sociedade, e, a partir dela, também colaboramos com a missão da Igreja.
As Diretrizes também apontam os ministérios leigos e valorizam os diversos carismas que são concedidos aos leigos. Não são dons destinados apenas à vida interna da Igreja. A partir dos nossos dons e carismas, podemos contribuir para a evangelização em diferentes espaços.
Há ainda uma recuperação muito bonita do Documento Final do Sínodo, especialmente quando fala da necessidade de acolher, acompanhar e realizar o discernimento com as pessoas. Isso aparece desde a família, passando pelas crianças, adolescentes e jovens, até a valorização da presença das mulheres e de diferentes grupos dentro da Igreja.
É muito significativo quando as Diretrizes reconhecem a importância das mulheres na Igreja. Somos a grande maioria na vida comunitária e estamos presentes no trabalho de base, na transmissão da fé e na construção das comunidades. Esse reconhecimento também nos ajuda a compreender a importância da nossa participação.
Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer que muitos dos trabalhos realizados na Igreja são feitos por leigos e leigas. Essa consciência fortalece nossa compreensão de que somos sujeitos maduros e nos ajuda a romper com um clericalismo muito forte, que, muitas vezes, também é fortalecido por nós mesmos.
As Diretrizes ainda apontam caminhos para a participação das pessoas com deficiência, dos idosos e de tantos outros grupos. Elas nos mostram diferentes espaços nos quais nós, leigos e leigas, podemos atuar e, ao mesmo tempo, nos chamam a um processo de formação e de consciência sobre o nosso papel na Igreja.
Não somos chamados à subserviência. Somos chamados à corresponsabilidade. E acredito que esse é um dos pontos fortes das novas Diretrizes: todo o seu conteúdo nos chama a assumir essa corresponsabilidade na missão.
3. Neste ano, também celebramos os dez anos do Documento 105 da CNBB. Na sua avaliação, quais avanços já podemos perceber e quais desafios ainda precisam ser enfrentados para que o laicato viva plenamente sua vocação?
Acredito que tivemos muitos avanços nesses dez anos. Percebemos um crescimento na consciência do laicato e o surgimento de muitos grupos e iniciativas a partir das reflexões propostas pelo Documento 105.
Também é significativo perceber que as novas Diretrizes dedicam uma atenção específica ao laicato e acolhem contribuições de muitos leigos e leigas. Considero que isso já é fruto desse processo iniciado e fortalecido pelo Documento 105. A Igreja no Brasil deu um salto qualitativo importante ao assumir essa reflexão sobre o laicato.
Por outro lado, ainda temos uma Igreja na qual muitos leigos acreditam que seu lugar é apenas dentro da própria Igreja. Esse é um dos grandes desafios que precisamos enfrentar. Precisamos nos perguntar por que os cristãos leigos estão tão concentrados no espaço interno da Igreja e não estão presentes em sua missão primeira, que acontece na família e na sociedade.
Essa concentração também pode acabar fortalecendo estruturas autoritárias e uma compreensão de que a Igreja é o único espaço possível de encontro e participação. Temos ainda o desafio de romper com o clericalismo, e acredito que precisamos compreender que ele pode ser alimentado pelos dois lados.
Outro desafio é a formação. Ao mesmo tempo em que tivemos um avanço significativo, com o surgimento de escolas de teologia para leigos e com muitos leigos buscando formação, também percebemos fechamentos em algumas dioceses e ambientes.
Isso nos mostra que ainda precisamos tomar consciência do que significa ser “sujeito eclesial”, ser um sujeito maduro na fé, capaz de compreender que é corresponsável pela missão e que não ocupa uma posição subalterna na Igreja.
Enquanto não assumirmos essa consciência a partir do nosso Batismo, enquanto não compreendermos que somos chamados a ser testemunhas de Jesus Cristo — e não testemunhas de determinadas pessoas —, teremos dificuldade para romper com a ideia de que somos menores dentro da Igreja.
Não somos menores. Somos diferentes. O que nos diferencia são os diversos ministérios e dons, mas a vocação é uma só: somos chamados à vivência cristã e ao testemunho de Jesus Cristo.
4. Para finalizar, que mensagem você gostaria de deixar aos cristãos leigos e leigas do CNLB Regional Leste 2 neste Mês Vocacional?
A mensagem que deixo aos cristãos leigos e leigas, especialmente aos do nosso Regional Leste 2, é que temos um Regional muito bonito e diversificado. Minas Gerais é um território imenso, marcado por diferentes realidades e experiências. Precisamos compreender o chão que estamos pisando, perceber quais são os sinais dos tempos e reconhecer onde nós, leigos e leigas, somos chamados a atuar e a assumir nossa missão.
Ao mesmo tempo, precisamos viver essa experiência de uma Igreja sinodal, especialmente naquilo que as Diretrizes apontam sobre as relações. Que tipo de relações estamos construindo dentro da Igreja, inclusive entre nós, leigos e leigas?
Muitas vezes, temos relações marcadas por conflitos e até por situações tóxicas. Mas também precisamos nos perguntar: como podemos contribuir para transformar tudo isso? Como podemos ajudar a mudar estruturas fechadas, não pelo confronto, mas colocando Jesus Cristo no centro?
É a missão de Jesus Cristo que precisamos vivenciar. Somos chamados a viver a experiência do encontro, da partilha e, principalmente, da esperança.
Nós, leigos e leigas, somos chamados a viver a esperança com os pobres e para os pobres, nas periferias. A mesma esperança que animou Maria Madalena a sair às pressas para anunciar a Ressurreição também deve nos animar.
Que essa esperança nos impulsione, como leigas e leigos, a sair às pressas para as periferias e anunciar que Jesus ressuscitou e que o Evangelho de Jesus Cristo é aquele que veio para trazer vida — vida em abundância — principalmente nos ambientes onde a vida está ameaçada.
